Se eu fosse você

abril 28, 2009 - Uma resposta

Aviso a quem é chegado num RPG: Interpretar outro papel pode fazer bem – ou não.  Segundo o blog da revista Mente & Cérebro, assumir outras identidades, mesmo que temporariamente, pode ajudar a destruir padrões de comportamento.

Dungeons & Dragons - Se você nunca ouviu falar, provavelmente era o malvadão que batia nos nerds da escola

Dungeons & Dragons - Se você nunca ouviu falar, provavelmente era o malvadão que batia nos nerds da escola


Trocando em miúdos: fingindo por um instantinho que você não é você, é possível, por exemplo, falar bem em público quando você sempre acreditou que não tinha aptidão para tal. Pelo menos é o que demonstram estudiosos de Stanford através de um experimento no qual homens e mulheres participavam de um jogo matemático online assumindo a identidade de personagens. O resultado: Aqueles que interpretavam personagens masculinos, independente do sexo real, se saíam melhor.

Apesar de questionar uma generalização desses achados, qualquer dia desses saio pra dirigir travestida de homem. Se eu estancar menos e conseguir atingir os 120 sem ter um piripaque, venho correndo avisar.

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[Fuga de assunto] A uma nova vida

abril 15, 2009 - Leave a Response

Eu havia acabado de chegar. Estava ansiosa e borboletas voavam freneticamente no meu estômago quando a professora pediu que eu me apresentasse à turma. Deixei que uma autodescrição detalhada se esquivasse claustrofobicamente pela minha garganta e, quando me dei por satisfeita e tinha a certeza de ter impressionado meus novos colegas de classe germânicos, a professora abriu um espaço para perguntas. Logo se ergueu, decidido e impetuoso, um braço à minha frente, na diagonal esquerda. A mão desse braço tinha um anel prateado ao redor do polegar. “Sim, diga” – cedeu o direito à palavra a professora. Em algum lugar próximo ao braço, vi olhões azuis inquisidores emoldurados por cílios negros igualmente enormes a fitar-me. “Qual é o seu nome?” – perguntou, num misto de simpatia e sarcasmo que, comicamente, não me parecia contraditório.

E hoje, enquanto olhava fixamente a foto de um feijãozinho com olhinhos saltados, grudado a um endométrio, evoquei lembranças saudosas e transformei-as em memórias do futuro. Vi os olhões inquisidores de cílios negros repreendendo olhinhos inquisidores, que já não eram mais saltados e haviam momentaneamente abandonado o aspecto curioso e esbanjavam remorso. Vi o mesmo polegar, envolvido pelo anel cor de prata, a acariciar uma cabecinha de cabelos loiros que ainda não podiam ser tingidos de preto, como os da mãe. Vi as mesmas escadarias que subimos cantando, mas quem ia ao lado dela era bem menor do que eu e segurava apreensivamente a sua mão ante à iminência inelutável do primeiro dia de aula. Vi o mesmo sorriso escancarado de quem prefere gargalhar à cara da vida a ter de encará-la de cara amarrada, mas o sorriso enfeitava um rosto pequenino – e não sabia ainda ao certo por quê sorria assim.

E aí eu deixei que a memória do sorriso me contagiasse com gosto, e desejei que, algum dia, uns novos olhões curiosos e um sorriso espirituoso (que eu nunca vi, mas me parecem velhos conhecidos) iluminassem a vida de mais uma estudante de intercâmbio, como eu.

Cidade do sol e da neurociência

abril 8, 2009 - Leave a Response

Que Natal tem belas praias ensolaradas, o mundo inteiro já sabe. Mas o que muitos ainda nem desconfiam é que a cidade é referência internacional em pesquisa neurocientífica.  O Instituto Internacional de Neurociências de Natal (pausa pra respirar) Edmond e Lily Safra (IINN-ELS) esconde atrás de uma modesta fachada um dos maiores nomes da neurociência mundial, o neurocientista paulistano Miguel Nicolelis, pesquisador em interface cérebro-máquina com destaque para o desenvolvimento de neuropróteses.

IINN-ELS

Neuropróteses? Sim, isso mesmo – Nicolelis é o descobridor de um sistema que permite mover um braço mecânico por meio de sinais neurais! O pesquisador pretende, através desse projeto, criar próteses para pessoas paralisadas ou amputadas que poderão ser movimentadas apenas através do comando do pensamento. É de dar inveja a qualquer (pretenso) paranormal!

E se você achou que, com essa descoberta, o neurocientista já poderia pendurar as chuteiras e ser ovacionado pelas próximas três gerações, ainda não viu nada.  No último dia 20 de março, Nicolelis e sua equipe de neurocientistas da Universidade de Duke (Durham, Estados Unidos) publicaram na revista Science um estudo que pode ser a nova promessa em tratamento para o mal de Parkinson: Trata-se da estimulação elétrica dos neurônios motores da medula espinhal. Através da estimulação desses neurônios por eletrodos implantados na medula espinhal de camundongos (que apresentavam uma condição induzida semelhante à do mal parksoniano), foi possível fazer com que os animais recuperassem o padrão normal de movimento.

Caso se mostre eficaz e seguro, o procedimento pode se tornar uma excelente alternativa aos tratamentos conhecidos hoje, como as medicações repositoras de dopamina, que perdem eficácia ao longo do tempo, e o implante de eletrodos no cérebro, que é um método invasivo e altamente dispendioso.

É, parece que a cidade do sol ainda vai dar o que falar.

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Gage brazuca

abril 3, 2009 - Uma resposta

Ele tinha 25 anos quando sofreu um acidente de trabalho, em 1848, em Vermont (Estados Unidos). O jovem Phineas Gage, operário da construção de uma ferrovia, teve uma barra de ferro de 2,5cm de diâmetro atravessada em seu crânio, o que destruiu um de seus olhos e lesionou o seu córtex pré-frontal, área do nosso cérebro relacionada às emoções. Gage sobreviveu, mas, segundo seus amigos e familiares, não era mais Gage. O acidente do qual supostamente escapara ileso convertera-lhe numa pessoa indisciplinada, petulante,  indiferente e de linguajar chulo, e o rapaz logo passou de herói sobrevivente a marginalizado e incompreendido, morrendo 13 anos depois no mais puro esquecimento. Triste fim para Gage, feliz contribuição para as neurociências.

No dia 28 de março de 2009, o Brasil conheceu um possível Phineas Gage canarinho que, por uma questão de milímetros, ainda atende pelo nome de Emerson de Oliveira Abreu. O mergulhador de 36 anos teve o seu crânio perfurado pelo próprio arpão e, assim como Gage, sobreviveu. A peça atingiu a região frontal direita de seu cérebro e, segundo especialistas, não causou nenhuma lesão que possa vir a ocasionar prejuízos motores ou visuais, embora haja risco de danos olfativos.

Lesão sofrida por Gage
Lesão sofrida por Gage
Lesão sofrida por Abreu
Lesão sofrida por Abreu

Enquanto aguardo ansiosamente por novas notícias, fico aqui me perguntando se o Brasil ganhará um novo desbocado para substituir Clodovil.

Fontes:

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Criatividade

abril 2, 2009 - Leave a Response

Não existe (quase) nada melhor do que chegar em casa mais cedo, depois de uma aula que terminou inesperadamente mais cedo, para pôr em prática aquele plano que você estava cozinhando há dias. Hoje foi um desses dias para mim. Liguei o computador velho de guerra e, depois de todos aqueles rituais-sagrados-hosana-aleluia-amém (e-mails, orkut, msn e o escambau), abri a página do WordPress. É agora, vou postar! E é bem verdade que eu googleei incansavelmente atrás de artigos legais, e até os achei, mas não consegui pensar em nenhum comentário maroto ou engraçadinho pra tecer a respeito dessas pérolas da neurociência. Nenhum, nenhunzinho! E pra não deixar o meu hiatus criativo atravancar o progresso desse blog logo nos seus primeiros passos, hoje vamos falar exatamente sobre ela, que nos foge nos momentos mais impróprios: a criatividade.

E o que é a criatividade? Segundo a neurocientista Suzana Herculano-Houzel (minha ídola, pago pau mesmo), é a capacidade de rearranjar idéias ou elementos de que já dispomos para formular novos conceitos, novas alternativas. E nem adianta dar uma de Franz Gall tentando situar a criatividade num local específico do seu cérebro – conforme diz Herculano-Houzel, a esta capacidade corresponde um complexo trabalho conjunto de estruturas de ambos os hemisférios cerebrais, responsáveis pelas funções implicadas (como a memória de trabalho, satisfação, imaginação de ações e a flexibilidade cognitiva). Portanto, criatividade não é uma dobrinha no seu cérebro, e sim a capacidade que ele tem de vislumbrar novos caminhos utilizando-se das mesmas estruturas e informações.

Para mais informações, visitem a matéria da autora. Deixo vocês por aqui, que minha flexibilidade cognitiva tá meio engessada hoje.

Pra início de conversa…

março 29, 2009 - Leave a Response

Primeiramente, gostaria de saudar você, leitor, e dar-lhe as boas vindas ao fantástico universo da neurociência. De hoje em diante, procurarei compartilhar com você alguns dos conhecimentos interessantes a respeito dessa área que vou catando aqui e ali, e espero que juntos possamos construir um acervo de deliciosas curiosidades que só essa estrutura enrugadinha dentro da sua caixa craniana, juntamente com seus menos conhecidos ajudantes, poderia lhe proporcionar. Mas antes de lançarmo-nos nessa expedição, gostaria de avisar-lhe, estimado leitor, que quem vos escreve não passa de uma curiosa estudante de psicologia. Peço paciência já de antemão com eventuais errinhos, e fiquem à vontade para contestá-los (afinal, não existe aprendizado sem confrontação). Dito isso, desejo-lhe uma boa leitura.

P.S. Em consideração a você e a mim, prometo que recorrerei o mínimo possível à uiquipédia.